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Como controlar a raiva na hora: o que a ciência recomenda (e o que piora)

Explodir, socar a parede ou "botar pra fora" parecem aliviar, mas a pesquisa mostra que pioram. Veja o que realmente ajuda a controlar a raiva na hora.

Por Lucas Oldmen
, 5 min de leitura

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Você está numa discussão. O rosto esquenta, o coração dispara, a voz sobe. Quando percebe, já falou o que não devia, e passa o resto do dia arrependido.

Se isso é comum na sua vida, você não é uma pessoa ruim. Muita gente que cresceu em ambiente de briga aprendeu que a raiva se resolve no grito, porque foi isso que viu em casa. A boa notícia é que controlar a raiva é uma habilidade, e habilidade se aprende.

Antes de ver o que funciona, vale desmontar uma ideia muito popular.

“Botar pra fora” não alivia a raiva

Muita gente acredita que é preciso extravasar: socar a parede, gritar no travesseiro, descontar em alguma coisa. Parece lógico, como abrir a tampa de uma panela de pressão.

O psicólogo Brad Bushman testou isso. Em um estudo publicado em 2002, ele provocou a raiva dos participantes e depois dividiu o grupo: uma parte bateu num saco de pancadas pensando em quem a irritou, outra parte bateu no saco pensando em fazer exercício, e outra ficou quieta por alguns minutos.

O resultado foi o contrário do que se esperava. Quem extravasou pensando na pessoa saiu mais irritado e mais agressivo. Quem ficou quieto foi quem se acalmou melhor.

Extravasar treina o cérebro a responder à raiva com mais raiva. O que funciona é o oposto: dar tempo para o corpo baixar a guarda.

O que acontece no seu corpo quando a raiva sobe

A raiva é uma reação de defesa. Quando o cérebro percebe uma ameaça, ou algo que lembra uma ameaça, o corpo se prepara para brigar: o coração acelera, os músculos tensionam, a respiração fica curta.

Nesse estado, a parte do cérebro que pensa nas consequências fica em segundo plano. Por isso a gente fala coisas que não falaria com a cabeça fria. Não é falta de caráter, é biologia. E justamente por ser biologia, dá para usar o próprio corpo para sair dela.

Se você cresceu em casa de briga, esse alarme costuma disparar mais rápido. Eu explico isso com calma no artigo sobre por que quem cresceu em casa de briga vive em alerta.

5 passos para controlar a raiva na hora

1. Perceba os sinais antes da explosão

A raiva quase nunca chega do nada. Antes dela vêm sinais: calor no rosto, mandíbula travada, mão fechada, voz mais alta, vontade de interromper.

Durante uma semana, preste atenção em quais desses sinais aparecem em você. Quanto antes você percebe, mais fácil é frear.

2. Faça uma pausa antes de responder

Quando perceber os sinais, não responda na hora. Diga algo simples, como “preciso de um minuto, já volto”, e saia do ambiente se for possível.

Isso não é fugir da conversa. É adiar a resposta para um momento em que você consiga falar o que realmente quer, e não o que a raiva quer.

3. Respire soltando o ar devagar

A respiração é o atalho mais rápido para acalmar o corpo. Um estudo da Universidade de Stanford, de 2023, testou um exercício chamado suspiro cíclico: puxar o ar pelo nariz, puxar mais um pouco no topo e soltar tudo bem devagar pela boca. Ele melhorou o humor e baixou a agitação do corpo.

Faça de três a cinco respirações assim. O segredo é a saída do ar ser mais longa que a entrada.

4. Dê nome ao que você está sentindo

Diga para você mesmo: “estou com raiva”, “estou me sentindo desrespeitado”, “estou com medo de perder o controle”.

Parece simples demais, mas tem ciência por trás. Pesquisadores da Universidade da Califórnia mostraram, em 2007, que colocar a emoção em palavras diminui a atividade da amígdala, a região do cérebro ligada ao alarme.

5. Fale consigo mesmo pelo seu nome

Em vez de pensar “por que eu estou tão irritado?”, pense “por que o fulano está tão irritado?”, usando o seu próprio nome.

Um estudo liderado pelo psicólogo Ethan Kross, publicado em 2014, mostrou que falar consigo mesmo na terceira pessoa ajuda a controlar emoções em situações de estresse. Isso cria distância, e com distância você enxerga a situação como enxergaria a de um amigo.

Depois que passar: pense diferente, não engula

Quando a raiva baixar, ainda existe o problema que a causou. Engolir e fingir que nada aconteceu também não funciona.

O pesquisador James Gross, da Universidade de Stanford, comparou duas formas de lidar com emoções: segurar e esconder (supressão) ou mudar a forma de interpretar a situação (reavaliação). Em seu estudo de 2002, quem só segurava a emoção tinha mais reação física de estresse e até lembrava pior do que tinha acontecido. Quem reavaliava se saía melhor.

Na prática, reavaliar é se perguntar:

  • O que mais pode explicar o que essa pessoa fez?
  • Daqui a um mês, isso ainda vai importar?
  • O que eu quero que aconteça depois dessa conversa?

Com a cabeça fria, volte e fale do que te incomodou de forma direta, sem ataque: “quando você fez isso, eu me senti assim, e eu preciso disso”.

Quando procurar ajuda

Se a sua raiva leva a agressões, quebra de objetos ou ameaças, ou se está destruindo seus relacionamentos e seu trabalho, procure um psicólogo. Não é sinal de fraqueza. É sinal de que você quer mudar de verdade.

A Unidade Básica de Saúde do seu bairro pode te encaminhar para atendimento pelo SUS, e muitas faculdades de psicologia oferecem atendimento gratuito ou a preço baixo.

Fontes

  • Bushman, B. J. (2002). Does venting anger feed or extinguish the flame? Catharsis, rumination, distraction, anger, and aggressive responding. Personality and Social Psychology Bulletin, 28(6).
  • Lieberman, M. D. et al. (2007). Putting feelings into words. Psychological Science, 18(5).
  • Balban, M. Y. et al. (2023). Brief structured respiration practices enhance mood and reduce physiological arousal. Cell Reports Medicine, 4(1).
  • Kross, E. et al. (2014). Self-talk as a regulatory mechanism: how you do it matters. Journal of Personality and Social Psychology, 106(2).
  • Gross, J. J. (2002). Emotion regulation: affective, cognitive, and social consequences. Psychophysiology, 39(3).

Perguntas frequentes

Desabafar ou descontar em algo ajuda a passar a raiva?

Não. Um estudo publicado em 2002 mostrou que bater num saco de pancadas pensando em quem provocou a raiva deixou as pessoas mais irritadas e agressivas do que simplesmente ficar quieto. Extravasar alimenta a raiva em vez de apagá-la.

O que fazer no momento em que a raiva sobe?

Perceba os sinais no corpo, faça uma pausa antes de responder, respire devagar soltando o ar por mais tempo, dê nome ao que está sentindo e fale consigo mesmo pelo seu nome, como se aconselhasse um amigo.

Quando a raiva vira motivo para procurar ajuda?

Se a raiva leva a agressões, quebra de objetos, ameaças ou está destruindo suas relações e seu trabalho, procure um psicólogo. A Unidade Básica de Saúde do seu bairro pode encaminhar para atendimento pelo SUS.

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Escrito por Lucas Oldmen, editor do Energia da Prosperidade. Empresário em Belo Horizonte. Veio de família humilde e virou a chave aos 27 anos estudando comportamento humano. Edita o Energia da Prosperidade para que outras pessoas não demorem o tanto que ele demorou. Sobre o site.

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