Como parar de procrastinar: o problema não é preguiça, é emoção
Você deixa tudo para depois e se culpa por isso? A ciência mostra que procrastinar é fugir de uma emoção ruim. Veja como quebrar esse ciclo na prática.
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Você sabe o que precisa fazer. Sabe até que é importante. Mesmo assim, abre o celular, arruma a mesa, vê “só mais um vídeo”. O dia acaba, a tarefa continua lá, e junto com ela vem a culpa.
Se você se reconhece nisso, provavelmente já se chamou de preguiçoso. Só que a ciência conta outra história.
Procrastinar não é preguiça
Preguiça é não querer fazer nada. Quem procrastina quase sempre está fazendo alguma coisa, só que não a coisa que precisa.
Os pesquisadores Fuschia Sirois e Timothy Pychyl revisaram os estudos sobre o tema e chegaram a uma conclusão importante, publicada em 2013: procrastinar é uma forma de fugir de uma emoção ruim. A tarefa desperta algo desagradável, como tédio, medo de errar, insegurança ou a sensação de não saber por onde começar. Adiar dá um alívio imediato. O problema é que o alívio dura pouco e a tarefa volta maior.
Ou seja: o seu cérebro está tentando te proteger de um desconforto agora, às custas do seu futuro.
Por que a gente adia justamente o que é importante
Uma grande análise feita pelo pesquisador Piers Steel, publicada em 2007, reuniu centenas de estudos sobre procrastinação. Três fatores apareceram com força:
- Tarefas desagradáveis ou confusas são as mais adiadas.
- Recompensas distantes perdem para prazeres imediatos. O resultado do estudo só vem daqui a meses; o vídeo diverte agora.
- Impulsividade: quem se distrai com facilidade procrastina mais.
Quem cresceu sem rotina e sem ninguém mostrando como organizar as coisas costuma sofrer mais com isso. Não é defeito. É falta de ferramenta. E ferramenta se aprende.
6 formas de parar de procrastinar
1. Descubra qual emoção você está evitando
Na próxima vez que adiar algo, pare e pergunte: “o que eu estou sentindo quando penso nessa tarefa?”. Medo de ficar ruim? Não saber por onde começar? Tédio?
Dar nome à emoção já diminui o peso dela. E, sabendo qual é, fica mais fácil escolher a solução certa.
2. Diminua o primeiro passo até ficar ridículo
“Estudar para o concurso” é grande demais. “Abrir a apostila na página 12” é pequeno o bastante para não assustar.
O cérebro resiste a começar, não a continuar. Quase sempre, depois que você começa, os dois minutos viram vinte.
3. Decida quando e onde
Em vez de “vou fazer isso amanhã”, diga: “amanhã, às 7h, na mesa da cozinha, eu abro a apostila”. Planos nesse formato, chamados de intenção de implementação, aumentam bastante a chance de a pessoa cumprir o que se propôs, segundo uma análise de 94 estudos publicada em 2006.
Eu explico como isso funciona em detalhe no artigo sobre como criar hábitos sem depender de força de vontade.
4. Junte a tarefa chata com algo que você gosta
Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia testaram uma ideia simples: os participantes só podiam ouvir seus audiolivros favoritos enquanto estavam na academia. Resultado, publicado em 2014: eles foram mais vezes à academia.
Faça o mesmo. Só tome o café que você gosta enquanto organiza as contas. Só ouça aquele podcast enquanto lava a louça ou estuda.
5. Tire a distração do caminho
Se o celular está do lado, ele vai ganhar. Coloque em outro cômodo, desative as notificações ou deixe o aparelho no modo avião durante o tempo da tarefa. Não é sobre ter mais força de vontade, é sobre precisar menos dela.
6. Pare de se culpar
Essa é a parte que mais surpreende. Um estudo com universitários, publicado em 2010, acompanhou alunos que procrastinaram para a primeira prova do semestre. Os que se perdoaram por isso procrastinaram menos na prova seguinte.
Faz sentido: a culpa é mais uma emoção ruim, e procrastinar é fugir de emoção ruim. Quanto mais você se ataca, mais vontade tem de fugir.
Então, quando adiar algo, troque o “eu sou um fracasso” por “eu adiei, acontece, qual é o menor passo que eu posso dar agora?”.
O que fazer hoje
Escolha uma única tarefa que você está empurrando. Escreva qual emoção ela desperta, defina o menor passo possível e marque quando e onde vai fazer. Só isso. Amanhã você dá o segundo passo.
Fontes
- Sirois, F.; Pychyl, T. (2013). Procrastination and the priority of short-term mood regulation. Social and Personality Psychology Compass, 7(2).
- Steel, P. (2007). The nature of procrastination: a meta-analytic and theoretical review. Psychological Bulletin, 133(1).
- Gollwitzer, P. M.; Sheeran, P. (2006). Implementation intentions and goal achievement: a meta-analysis. Advances in Experimental Social Psychology, 38.
- Milkman, K. L.; Minson, J. A.; Volpp, K. G. M. (2014). Holding the Hunger Games hostage at the gym. Management Science, 60(2).
- Wohl, M. J. A.; Pychyl, T. A.; Bennett, S. H. (2010). I forgive myself, now I can study. Personality and Individual Differences, 48(7).
Perguntas frequentes
Procrastinação é preguiça?
Não. Pesquisas mostram que procrastinar é uma forma de fugir de uma emoção desagradável ligada à tarefa, como tédio, medo de errar ou insegurança. Adiar dá um alívio rápido, mas o problema volta maior.
Me culpar ajuda a parar de procrastinar?
Ajuda o contrário. Um estudo com universitários mostrou que quem se perdoou por ter procrastinado numa prova procrastinou menos na prova seguinte. A culpa aumenta a emoção ruim que leva a adiar.
Qual é a forma mais simples de começar uma tarefa que eu estou evitando?
Diminua o primeiro passo até ficar quase ridículo de tão pequeno, como abrir o arquivo ou escrever uma frase, e decida exatamente quando e onde vai fazer isso.
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Escrito por Lucas Oldmen, editor do Energia da Prosperidade. Empresário em Belo Horizonte. Veio de família humilde e virou a chave aos 27 anos estudando comportamento humano. Edita o Energia da Prosperidade para que outras pessoas não demorem o tanto que ele demorou. Sobre o site.
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